Parto humanizado resgata o protagonismo feminino
Cotidiano 25/08/2012 07h00 |Por Elisângela Valença
Bolsa rompida, contrações, dilatação - está iniciado o trabalho de parto, que pode levar até vinte e quatro horas. Com o grande número de infecções e altas taxas de mortalidade materno-infantil, a medicina tirou o parto da residência para levá-lo ao hospital. “A questão é que se hospitalizou demais o processo do parto”, comenta o obstetra Mauro Muniz. “O vínculo familiar foi quebrado. Antes, a mãe da parturiente, o marido, uma tia, alguém participava deste momento importante. A parturiente passou a entrar sozinha no centro cirúrgico, pela preocupação com contaminação ou interferência no processo”, explica.
A promotora de eventos Kelly Rocha da Silva tem 22 anos de idade e um filho de um ano e quatro meses. Para ela, o parto não foi uma experiência completamente mágica, como se costuma dizer. “Eu passei a madrugada indo e voltando para casa, porque minha dilatação não avançava e a maternidade estava superlotada”, conta Kelly. “Pela manhã, ao final do plantão da minha obstetra, ela me disse que não poderia esperar mais, a menos que o parto não fosse pelo SUS, mas uma cesária pelo particular”, acrescenta.
O medo de fazer o parto com alguém que não acompanhou sua gestação fez Kelly optar pela sugestão da médica. “Minha sensação, depois do medo, foi de frustração e decepção. Eu fui para o centro cirúrgico sozinha, minha mãe não pode me acompanhar, não estava entendendo bem o que estava acontecendo. Como foi cesária, não ‘senti’ meu filho nascer, já que eu queria e estava preparada para ter normal. Meu bebê foi apresentado a mim, mas muito rápido e só fui vê-lo novamente no quarto”, relata.
Situações como a de Kelly ou até piores são provas da desumanização do parto. São as chamadas violências obstétricas, que vão desde decisões para agilizar o parto, a frases como “na hora de fazer foi fácil, agora está reclamando”, “pare de gritar”, entre outras ditas no momento do parto. “Este momento virou um evento hospitalar. É preciso reverter este quadro, trazer de volta a importância deste momento na vida da mulher, na vida da família”, defende a médica sanitarista Priscilla Batista.
E é em busca da humanização do parto que muitos médicos e o poder público estão trabalhando. “É uma mudança de paradigmas, de comportamentos, mas estamos avançando bastante”, diz ela.
Segundo Priscilla, humanizar o parto é trazer a mulher de volta para o seu papel de protagonista deste momento. “Naturalmente, o parto pode durar cerca de vinte e quatro horas, desde as primeiras contrações até o nascimento. Quem vai ditar isso é o organismo da mulher, que precisa ser respeitado. Como hospitais precisam atender a demandas, aparecem os hormônios de aceleração do parto, indicações de cesárias e outros procedimentos. A mulher não decide mais nada. A partir do momento em que ela entra no hospital, ela passa a ter um parto passivo”, explica.
O processo de humanização do parto começa com o pré-natal. “É nesta fase que vai se avaliar a mulher, acompanhar o seu quadro de saúde e do bebê, saber se ela vai ter condições de ter um parto normal ou não, fazer o plano de parto, que inclui os médicos que irão acompanhar, onde será feito o parto, como será feito. São decisões conjuntas entre a mulher, a família e a equipe médica para que este seja realmente um momento mágico”, explica Priscilla.
O respeito ao tempo da mulher na hora do parto também faz parte deste processo. “Se a mulher tem condições de fazer um parto normal, de cócoras, em casa e ela quer fazer isto, deve ser respeitada. Ninguém está defendendo uma volta ao passado, a uma época de riscos e altas taxas de mortalidade materno-infantil, mas defendendo que este é um momento da mulher, da família e que, havendo condições, esta decisão deve ser respeitada”, diz a sanitarista.
Apoio
Um acompanhante durante o parto também é outro item da humanização e é garantido por lei no atendimento público (na rede privada, é paga uma taxa pela presença do acompanhante na sala de parto). O acompanhante vai dar apoio emocional e informacional à parturiente. “Eu me senti muito sozinha, até abandonada por assim dizer. Os médicos estavam no procedimento do parto, dos cuidados e não tinham como me dar uma atenção melhor”, disse Kelly. “A presença do acompanhante, o conforto emocional deste personagem neste momento é de grande valia. Muitas vezes, o parto até vai mais rápido, mais fácil”, diz o obstetra Mauro Muniz.
Em algumas maternidades, já há a presença da doula, que é uma assistente de parto sem titulação oficial, que proporciona informação e apoio físico e emocional às mulheres durante a gravidez, o parto e o pós-parto. São pessoas que passam por um curso preparatório com uma equipe multidisciplinar, envolvendo médicos, enfermeiros, psicólogos, onde vão adquirir informações técnicas sobre todo o processo de parto, manobras e massagens para aliviar a dor, além de apoio emocional.
E foi numa doula que a Kelly se transformou. “Minha experiência não foi das melhores. Vendo um material sobre o assunto, procurei informações e hoje ajudo mulheres a terem uma experiência com o parto bem melhor”, diz.
Januária Santos, de 57 anos, tem quatro filhos e um neto. Sua primeira filha nasceu em 1977, num parto complicado. “Eu pari de sete meses e acabei parindo sozinha. Quando a parteira chegou, o bebê já tinha nascido. Eu nem sabia o que estava acontecendo”, disse Januária. Segundo ela, cada um de seus partos e o nascimento de seu neto foi uma experiência diferente. “Mas nenhum se compara a um parto com um acompanhante, como uma doula. A tranquilidade, o conforto, o carinho tornam o processo muito melhor”, diz.
Foi esta experiência que Maria Rosângela Alves teve, há poucos dias, com o nascimento de seu terceiro filho. Sua primeira filha tem 15 anos e o segundo, 10. “Foi tudo muito diferente. Apesar de os outros partos não terem sido de risco, nenhum foi tão bom como este e agradeço a Kelly, que foi minha doula”, disse.
Outro ponto da humanização do parto é o contato mãe e filho desde o momento em que o bebê sai da barriga até a saída do hospital. É o chamado alojamento conjunto. “Mesmo ainda com o cordão umbilical, o bebê já deve ser colocado em contato com a mãe, no colo dela. E este contato deve permanecer até saírem do hospital”, explica Priscilla Batista. Segundo ela, o bebê deve permanecer com a mãe na sala de parto, na recuperação, no quarto.
Rede Cegonha
O Governo Federal, dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), montou a Rede Cegonha para atenção materno-infantil que tem, entre as diretrizes, o trabalho com boas práticas com evidências científicas, a presença do acompanhante antes, durante e depois do parto (garantido, no SUS, pela Lei 11.108/2005) e acolhimento com classificação de risco.
De acordo com Mariane Marques, apoiadora institucional da Rede Cegonha do Ministério da Saúde em Sergipe, o estado ainda tem muito a crescer, mas passos importantes já foram dados, como a instalação do Fórum Cegonha, para discutir políticas de ação e resolução de problemas. Em agosto, o fórum montou um protocolo de acolhimento e classificação de risco estadual, padronizando o atendimento à gestante nas unidades de saúde sergipanas.
“O fórum tem caráter deliberativo. O que é definido neste espaço, tem que ser seguido pelas unidades de saúde. Por isso, envolvemos os gestores do setor, como secretários de saúde”, explica Mariane. Segundo ela, a Rede Cegonha foi montada em 2011, que envolve não só as maternidades, mas toda rede de atenção, como postos de saúde, Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), planejamento familiar.
